Palavras-chaves: Moralidade

A Bíblia que nem todos conhecem (Parte 2)

No artigo anterior demonstrei que a Bíblia não pode ser utilizada como princípios morais, citando textos do Antigo Testamento onde contêm violência, preconceitos, assassinatos entre outros atos ilícitos, mas que para Deus era algo normal. Muitos religiosos concordam que os textos do Antigo Testamento não são muito animadores e afirmam que o Novo Testamento corrige todos os erros, deixando mais claro a verdadeira palavra de Deus. Mas será mesmo que isso torna a Bíblia mais “correta”?

Sem dúvidas a personagem principal do Novo Testamento é Jesus. Se é que realmente existiu, este tem seus pontos fortes com relação à moralidade, devo admitir. Mas no que diz respeito aos valores familiares Jesus não era um bom exemplo. Lendo suas passagens na Bíblia, percebe-se claramente que ele era rude com sua própria mãe, e encorajou os discípulos a abandonar a família para segui-lo. Podemos ler em Lucas 14:26 “Se alguém vier a mim e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo”. Apesar disso, Jesus demonstrou ser um bom líder, capaz de influenciar outras pessoas e também passou alguns ensinamentos éticos, que se compararmos com o Antigo Testamento, podemos considerá-los bons e admiráveis. No entanto, no Novo Testamento há ensinamentos que certamente nenhuma pessoa de bem apoiaria, como por exemplo, a doutrina que é o centro do cristianismo: a da angústia do pecado original.

O pecado original tem origem no mito de Adão e Eva, figuras presentes no livro de Gênesis do Antigo Testamento. O pecado conforme conta a história foi comer o fruto proibido por Deus, que simbolicamente significa a “revelação do conhecimento do bem e do mal”, que acabou revelando na prática o conhecimento de que eles, Adão e Eva, estavam nus. Esta simbologia do fruto proibido foi o suficiente para transformar a travessura na mãe e no pai de todos os pecados. Adão e Eva foram expulsos do Jardim do Éden, assim como todos os seus descendentes, sendo condenados a gerações de trabalhos dolorosos, no campo e no parto, respectivamente. A dor que as mulheres sentem atualmente ao dar à luz, é proveniente do pecado de Adão e Eva, assim conta a história. Este é mais um fato bem vingativo, como mostra o restante do Antigo Testamento. Os cristãos afirmam que todas as pessoas já nascem com o pecado, pois acredita-se que o pecado de Adão e Eva tenha sido transmitido ao longo da ascendência masculina, transmitido pelo sêmen. Condenar uma criança mesmo antes de nascer, a herdar um pecado de um ancestral remoto? Não vejo nada de ético nisso. A igreja cristã geralmente deixa de citar em seus sermões coisas como, por exemplo, as estrelas do céu, os mares, as florestas, e ficam sempre no mesmo tema: o pecado, o foco sempre é o pecado. A preocupação maior parece ser que se preocupam que o Criador do universo fique injuriado com o que as pessoas fazem nuas.

Voltando ao Novo Testamento, vemos que Deus encarnou-se como homem, Jesus, para que pudesse ser torturado e executado em consternação do pecado de Adão. Sim, Jesus morreu para nos salvar, é o que pregam. Desde que Paulo expôs seu preceito, Jesus vem sendo adorado por muitos como o redentor de todos os nossos pecados, não apenas o pecado passado de Adão, mas todos os pecados que ainda vamos cometer, ou não. Judas ficou eternizado como sendo o “traidor” da história. Mas se Jesus queria ser traído e assassinado para que pudesse nos redimir, não é injusto aqueles que se consideram redimidos descontar em Judas e nos judeus por toda a eternidade? Não há nada de princípio moral nessa história.

Esse pecado que tanto cito e que é o foco da igreja cristã, além de ser cruel pode-se dizer que é um tanto quanto “sem lógica”. Pense um pouco. Se Deus queria perdoar nossos pecados, por que simplesmente não perdoou ser ter de ser torturado e executado, condenando assim as futuras gerações de judeus a perseguições por serem considerados os “assassinos de Cristo”, será que esse pecado hereditário também foi transmitido pelo sêmen? Executar um inocente para pagar pelos pecados dos culpados, realmente não dá para entender quem é que Deus estava querendo impressionar. Ele mesmo? É o que parece.

Muitos afirmam que a história de Adão e Eva é simbólica, mas sendo simbólica então Jesus para se impressionar fez-se ser torturado e executado, por um pecado simbólico cometido por uma pessoa que não existiu? Totalmente sem lógica. Tudo que se vê nessa história toda é a crueldade que a Bíblia sempre mostrou e mesmo assim muitas pessoas por não conhecerem bem seus textos, preferem usar este livro para obter os princípios morais para suas vidas. Para encerrar, um fato curioso que é proveniente do Novo Testamento: as pessoas usam um instrumento de tortura como símbolo sagrado, que é a cruz. Se Jesus tivesse sido morto nos dias atuais, as pessoas usariam cadeiras elétricas no pescoço no lugar de cruzes, ou talvez uma seringa para representar uma injeção letal?


A Bíblia que nem todos conhecem

A Bíblia Sagrada é o livro mais vendido no mundo e o mais respeitado. Mas ao mesmo tempo em que é o mais vendido, é bem provável que seja o menos lido. Segundo os cristãos, os textos contidos na Bíblia foram escritos por homens, porém, todos inspirados por Deus. Muitos dizem, equivocadamente, que estas Escrituras servem de princípios morais ou regras para se viver de forma lícita. Os Dez Mandamentos, por exemplo, são como regras listadas para a vida de uma pessoa. A Bíblia também faz com que pessoas se espelhem em personagens nela contida, ou até mesmo em Deus pelas suas “boas” atitudes, o que mais uma vez é um grande equívoco.

O fato é que se a Bíblia fosse bem analisada qualquer pessoa civilizada diria que os princípios nela contidos são na sua maioria, um tanto quanto horrendos. É claro que não me refiro a Bíblia toda, pois nem todos os textos são cruéis, no entanto os demais são pelo menos estranhos. Como todos sabem, a Bíblia se compõe de uma antologia confusa de documentos desmembrados, que foi escrita, revisada, traduzida e distorcida ao longo de séculos por vários autores anônimos, editores e copiadores que ninguém conhece. Isso sem dúvida pode justificar o fato de haver muitos textos estranhos na Bíblia. Todavia, são esses textos estranhos que muitos fanáticos religiosos consideram a fonte dos princípios morais. Tenho em mente que quem considera a Bíblia como princípio moral ou diz que ela é a palavra de um Deus de amor, nunca leu realmente seus textos, não conhece de fato a Bíblia ou então não a entendeu quando leu os textos existentes, principalmente no Antigo Testamento.

Em missas ou cultos, dificilmente se vê padres e pastores pregando o Antigo Testamento, como por exemplo, o livro de Deuteronômio, ou então Levítico. Isso porque nestes dois livros podemos ver um Deus desagradável, ciumento, vingativo, assassino com sede de sangue, orgulhoso, machista. Enfim, basta ler estes livros e todo o Antigo Testamento para constatar. Alguns exemplos:

Um Deus preconceituoso:

“Se um homem tiver relações com outro homem, os dois deverão ser mortos por causa desse ato nojento; eles serão responsáveis pela sua própria morte.” (Levítico 20:13).

Um Deus assassino:

“Pode ser que um homem tenha um filho teimoso e rebelde, que não obedece aos pais, nem mesmo depois de ser castigado. Então os pais devem levá-lo aos líderes da cidade e no lugar de julgamento na praça pública eles dirão: ‘O nosso filho é teimoso e rebelde; ele não nos obedece, gasta dinheiro à toa e é beberrão’. Aí todos os homens daquela cidade o matarão a pedradas, e assim vocês tirarão o mal do meio do povo. Todos saberão do que aconteceu e ficarão com medo”. (Deuteronômio 21:18-21)

Um Deus vingativo e genocida:

“E falou Deus a Moisés, dizendo: Vinga os filhos de Israel dos midianitas; depois recolhido serás ao teu povo.” (Números 31:1-2).

Um Deus pestilento:

“Diga a essa gente que eu, o Senhor Deus, estou avisando: Juro que os moradores das cidades arrasadas serão mortos. Os que vivem no campo serão comidos por animais selvagens. Os que estão escondidos nas montanhas e cavernas ficarão doentes e morrerão.” (Ezequiel 33:27)

Se Deus é bondoso, é muito surpreendente que ele cometa tamanha crueldade com qualquer ser humano. Assim pensam os que reverenciam a Bíblia, mas certamente não a leram totalmente. O mesmo Deus que disse “Não matarás”, diz que, para se apossarem da terra que lhes foi ofertada, eles têm que aniquilar sete nações (Deuteronômio 7:1-6). Estes exemplos são apenas uma amostra do festival de aversões do Antigo Testamento. No entanto, bilhões de pessoas em todo o mundo (sejam católicos, protestantes, evangélicos e judeus) consideram este livro a voz de um Deus amoroso, bondoso, justo e misericordioso, que oferece aos homens a oportunidade de salvação eterna em um paraíso.

São vários exemplos do Antigo Testamento que eu poderia citar aqui. Uma das lendas mais conhecidas é a da Arca de Noé. A história dos animais entrando na arca é fabulosa, mas a moral desta história é assustadora. Todos os seres humanos foram condenados por Deus, o qual resolveu afogar todos, inclusive crianças e animais inofensivos. Porém, uma família foi poupada, a de Ló, sobrinho de Abraão. Foi poupada por Deus, porque Este considerava Ló um homem correto. No livro de Gênesis lemos sobre este homem. Conta a história que dois anjos foram enviados a Sodoma com a intenção de avisar Ló que ele e sua família deveriam sair da cidade, antes da chegada do enxofre que destruiria tudo. Ló foi bondoso, recebeu bem os visitantes, e então os homens de Sodoma reuniram-se em volta de sua casa e exigiram que Ló entregasse os anjos a eles. “Onde estão os homens que entraram na sua casa esta noite? Traga-os aqui fora para nós, pois queremos ter relações com eles.” (Gênesis 19:5). Os dois anjos que visitaram Ló são sexualmente irresistíveis aos sodomitas. Ló então defende os visitantes dizendo: “Por favor, meus amigos, não cometam esse crime! Prestem atenção! Tenho duas filhas que ainda são virgens. Vou trazê-las aqui fora para vocês. Façam com elas o que quiserem. Porém não façam nada com esses homens, pois são meus hóspedes, e eu tenho o dever de protegê-los.” (Gênesis 19: 7-8). Ou seja, Ló se recusa deixar dois anjos disponíveis a um bando de pervertido e oferece as duas filhas virgens. Seria realmente Ló um homem correto? Este mesmo homem é chamado de “justo” em II Pe 2:7-8. Mas os anjos conseguiram espantar os homens, deixando-os cegos, e alertaram Ló que partisse imediatamente com sua família e seus animais, porque a cidade seria destruída em instantes. A família inteira escapou, com a exceção da pobre mulher de Ló, que o Senhor Deus transformou numa estátua de sal por ter cometido a ofensa de olhar para trás (Gênesis 19:26). Que história trágica, ninguém merece ser transformado em sal, não é mesmo?! A história de Ló, o homem correto aos olhos de Deus, vai longe. As filhas dele o embebedaram para copular com ele, pois estavam carentes de companhia masculina. Ló não viu que sua filha mais velha entrou ou saiu da sua cama, mas não estava bêbado o bastante para engravidá-la. Na noite seguinte foi a vez da filha mais nova, e novamente Ló não percebeu que estava tendo relações sexuais com sua própria filha. Isto pode ser lido em Gênesis 19:31-36. Lembre-se, esta família era considerada por Deus a melhor em princípios morais.

Pense um instante, que moralista atual gostaria de seguir o exemplo de Ló? Não posso deixar de citar o exemplo de Abraão, o pai fundador de todas as três religiões monoteístas. Abraão foi ordenado por Deus que transformasse seu filho Isaac numa oferenda em forma de fogo. Ele então construiu um altar, onde colocou lenha, amarrando seu filho junto. Abraão já estava com a faca na mão quando um anjo chegou e evitou o pior, alegando que Deus estava apenas brincando, estava testando a fé de Abraão. Um Deus brincalhão. Pense novamente, um moralista atual certamente iria imaginar como uma criança conseguiria se recuperar de um trauma psicológico como esse. Este exemplo retrata bem o que acontece nos dias atuais, quando assassinos alegam no tribunal: “Eu só estava cumprindo ordens de Deus”.

Muitas pessoas dizem que textos como estes que citei da Bíblia não devem ser considerados como um fato literal. Mas muitas pessoas até hoje encaram como se fossem. Mas se não for literal, o que seria? Uma lição de moral? Certamente não. E também, nada digno de louvor. Que tipo de lição poderíamos tirar de histórias tão apavorantes? O que acontece atualmente é que padres e pastores deixam de pregar textos cruéis como estes, escolhem os mais agradáveis e rejeitam os mais impiedosos. Penso que se as pessoas ouvissem esses textos nas igrejas, pouquíssimas continuariam freqüentando. Isso se chama omissão, que, aliás, também é visto como pecado na Bíblia. Como citei no começo, poucas pessoas conhecem a Bíblia, conhecem apenas trechos que são lidos em missas, cultos ou em Slides com mensagens bonitas que são enviados pela Internet.

Eu insisto em defender a idéia de que pessoas que tomam a Bíblia como inspiração para a retidão de moral não tem noção do que realmente está escrito nela. Vamos a mais alguns exemplos. Em Levítico 20, as seguintes ofensas, segundo Deus, merecem a morte: a homossexualidade, cometer adultério, amaldiçoar os pais, casar com a mulher e com a filha dela, ter relações sexuais com a madrasta ou com a enteada, o bestialismo (até mesmo os pobres animais devem morrer), e também quem trabalhar no sábado. Em Números 15, lemos que os filhos de Israel encontraram um homem trabalhando, ele estava humildemente apanhando lenhas no sábado, que é o dia proibido. Eles prenderam o pobre homem e perguntam a Deus o que fazer com ele. Mas Deus não estava bondoso naquele dia: “Tal homem será morto; toda a congregação o apedrejará fora do arraial. Levou-o, pois, toda a congregação para fora do arraial, e o apedrejaram; e ele morreu”. Será que o humilde trabalhador não tinha família para lamentar sua morte? Teria este pobre homem chorado de medo quando as primeiras pedras voaram em sua direção, e gritado de dor enquanto as pedras atingiam sua cabeça? O que me deixa frustrado nessas histórias não é que elas tenham acontecido realmente. Provavelmente não aconteceram. O que me deixa frustrado é saber que muitas pessoas atualmente baseiam suas vidas em exemplos contidos na Bíblia.

Minha opinião é de que não devemos tirar nossos princípios morais da Bíblia. De fato não tiramos mesmo. Quis citar e demonstrar neste artigo que todo princípio de moral que temos não vem da Bíblia, como muitos religiosos alegam. Se fosse, nós teríamos que respeitar o sábado e acharíamos justo executar todo aquele que não respeitasse. Ou então, executaríamos crianças desobedientes. Apedrejaríamos noivas que não conseguissem provar sua virgindade, caso o marido anunciasse estar insatisfeito. Realmente, nossos princípios morais não vêm da Bíblia, felizmente.

Eu recomendo aos meus caros leitores, caso discordem deste artigo, que leiam e interpretem de forma racional os livros contidos no Antigo Testamento.

Agora abro uma questão, a qual irei escrever na seqüência para fundamentá-la. Muitas pessoas, incluindo religiosos, concordam com tudo isso que citei, assumem que o Antigo Testamento é desagradável e dizem que o Novo Testamento de Jesus desfaz todo o erro e deixa tudo consertado. Será verdade?


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