O primeiro transtorno alimentar foi identificado no Século XVII (a “anorexia histérica”), e na época era raro encontrar um caso da doença. Hoje, com a valorização excessiva da aparência que impõem a magreza como padrão de beleza, os casos têm aumentado assustadoramente.

Em países industrializados, 93% das mulheres e 82% dos homens estão preocupados com a aparência e trabalham para melhorá-la. Essa influência social – associada a fragilidades biológicas e emocionais e a um histórico familiar de transtornos psicológicos – faz com que as pessoas mais vulneráveis passem a achar impossível ser feliz com um corpo “feio” e desenvolvam uma relação doentia com a comida.

Desejar ardentemente ter um corpo perfeito não causa um problema emocional, mas aumenta a possibilidade de que ele apareça, especialmente na adolescência, quando a personalidade ainda não está plenamente formada. Os jovens começam a sentir que têm obrigação de ter uma aparência “perfeita” e “saudável”, ainda que para isso tenham que sacrificar a saúde e o bem-estar.

À semelhança das bulímicas, as pessoas com o transtorno de comer compulsivamente perdem o controle durante os frequentes ataques e só conseguem parar de comer quando se sentem fisicamente desconfortáveis. Mas, ao contrário das bulímicas, não usam métodos purgativos para eliminar os alimentos ingeridos, nem têm preocupação irracional com o peso e a forma do corpo. A maioria é obesa, e cerca de 30% fazem controle alimentar e de peso com acompanhamento médico. É considerada portadora desse transtorno a pessoa que tem ataques de comer compulsivo pelo menos duas vezes por semana, por um período mínimo de seis meses, em que: come muito mais rápido que o normal; come até sentir-se desconfortável fisicamente; ingere grandes quantidades de comida, mesmo estando sem fome; come sozinha, com vergonha da quantidade de comida ingerida; sente-se culpada e/ou deprimida após o episódio, o que a faz comer de novo.

Esse quadro está relacionado a outras graves doenças psiquiátricas, como depressão e transtornos de ansiedade, e atinge 2% da população.

O tratamento busca restabelecer o equilíbrio do funcionamento do corpo, o peso considerado normal para a pessoa e, o mais difícil, a saúde mental e o comportamento alimentar adequado. Como esses transtornos são produtos de uma complexa interação entre aspectos biológicos, psicológicos, familiares e socioculturais, devem ser tratados por uma equipe composta por endocrinologista, psiquiatra, psicoterapeuta e nutricionista, em estreita cooperação.

O endocrinologista analisa o paciente fisicamente e pode prescrever remédios para o combate à desnutrição e eventuais infecções, e até optar pela internação. O psiquiatra decidirá se é necessário medicá-lo a fim de resgatar seu equilíbrio emocional. Já a psicoterapia visa tratar em profundidade o paciente, suas relações com a família, a sociedade e, principalmente, consigo mesmo, auxiliando na recuperação da auto-estima, oferecendo um caminho para a descoberta das causas do problema e permitindo traçar estratégias e desenvolver habilidades para melhor lidar com os desequilíbrios emocionais.